domingo, 29 de maio de 2011

1 ano - memorial


Chamava-se Teco. O nome foi dado pela minha prima, e eu não me importei porque tudo o que queria na altura era ficar com aquela bola de pêlo suja, que se escapara dos incêndios do Verão daquele ano e que andava pela aldeia perdido, sem nunca abanar a cauda. Um dia, fui ao Alentejo e num monte de areia encontrei o cão triste de que todas as velhotas tanto falavam. Tinham pena, pobre do bicho, parecia morrer por dentro a cada dia que passava. Não resisti em ir dar-lhe uma festinha. Sempre adorei cães, já há muito tempo que queria ter o meu cão. Era uma responsabilidade e pêras. 

À noite, chovia e fazia vento, e o pobre do cão por lá andava. Inofensivo e triste como andava, era gato sapato dos outros cães. Ouvia-se uma barulheira interminável à porta da minha casa de férias e rapidamente me levantei para ir enxotar os cães que mordiam o pobrezinho. Quis dar-lhe guarida, mas ele era desconfiado. Pus um pouco de comida. Nada. Um pouco de água. Cheirou, mas não bebeu. Fiquei meia hora ao frio invulgar que se fazia sentir naquele Outubro, pus uma manta e tentei abrigá-lo. Até que, sem me lembrar porquê, lhe dei leite. Bebeu tudo. Servi umas três tigelas de leite que ele bebeu sem hesitar. Dei-lhe uma festinha e notei um ligeiro e discreto abanar de cauda.


No dia seguinte, ia embora. Por isso acordei às 6h da manhã para ir brincar com o cão. Tinha, na altura, dez anos. Abanou a cauda e vinha sempre atrás de mim. Os velhotes madrugadores, todos eles comentavam com admiração o abanar de cauda da pequena bola de pêlo. Na hora de pôr as malas no carro, de entrar no carro e pôr o cinto, era tristeza no seu olhar e desconsolo no meu. "Queres ficar com o cão?", perguntaram os meus pais. E parece que ele tinha percebido. Era dia 12 de Outubro.


Foi o meu melhor amigo durante toda a minha adolescência. Não conheci cão mais grato e dedicado que ele. As histórias que há para contar são mais que muitas e guardo-as bem no meu coração. Foi o meu primeiro cão, da minha inteira responsabilidade, como se fosse um primeiro filho. Quase morreu de uma complicação nos intestinos, sem aviso prévio. Foram férias de Páscoa a ir todos os dias ao veterinário. Desapareceu uma noite, pois o portão tinha ficado aberto e eu, dentro de casa, estava com um mau pressentimento. Foi na noite de 8 para 9 de Dezembro, que recebi um telefonema do Leandro a dizer que uma amiga dele o tinha encontrado. Eram duas e meia da manhã, e quando consegui falar com a amiga combinámos encontrar-nos e às três da manhã tinha o meu velhote - que já era cego, com artroses e quase surdo - ao colo embrulhado numa manta, aterrorizado por se ter perdido de mim.


Há exactamente um ano atrás, tive o pior dia da minha vida. Às 9h da manhã de Sábado tive de abater o Teco, que se esvaíra em sangue nos meus braços minutos antes. Já não iria conseguir ter qualidade de vida. Enquanto levava a injecção não fui capaz de o largar, chorei no pêlo dele, beijei-o, pedi desculpa por todas as vezes que falhei com ele e agradeci por ele nunca me ter falhado, nunca me ter desiludido e nunca me ter deixado ficar mal. Ele ganiu baixinho, olhava para mim como há muitos anos não conseguia olhar. Parecia que, embora fosse cego, me conseguisse ver. E sempre conseguiu. Afinal, só se vê bem com o coração porque o essencial é invisível aos olhos.


Agarrei-o a chorar desalmadamente porque o amava (e ainda amo) mais do que seria possível imaginar, senti a sua alma a ficar leve e o corpo a ficar pesado. Já ele estava a caminhar para um sítio melhor, e eu ainda estava agarrada ao meu cãozinho para não o deixar sozinho nunca mais. 


Não consegui escrever. Era demasiado doloroso pensar sequer. Prometi a mim mesma que lhe faria um memorial, mas até um ano depois, a escrever estas palavras, depois de um período tão atribulado da minha vida, choro. Não consigo parar de chorar porque todos os dias tenho saudades do melhor cão da minha vida, e é duro escrever sobre alguém que nunca mais vamos ver. 

Há quem ache parvo, mas essas pessoas de certeza que nunca tiveram um cão para entender que a ligação que nasce entre um ser humano e um animal é muito mais profunda do que muitas ligações entre seres da mesma espécie.


Obrigada por te ter encontrado.

1 comentário:

Maria Leonor disse...

Deu-me vontade de chorar também...tem um ar tão querido...

Eu acho que entrava em depressão se perdesse a minha gata. Chama-se Mya, também foi encontrada na rua, e é um cão autêntico. Anda sempre atrás de mim, quando não estou fica deprimida e não come...nem quero pensar!

Mas se temos animais temos de nos arriscar a isto. Life's a bitch!