quinta-feira, 11 de abril de 2013

desenquadramento.


Não me enquadro. Simplesmente não me enquadro numa sociedade acéfala que me tenta deturpar o olhar e ditar os passos do caminho que eu devo percorrer. Não me enquadro num mundo em que a inveja e o egoísmo lideram. Em que o egocentrismo é qualidade geral. Em que a rotina, o correcto, o socialmente aceitável, e não os sonhos, comandam a vida, manipulando, bloqueando e limitando todos os nossos sentidos. 

Não me enquadro num mundo em que o maior prazer da vida não seja o de viver, mas o de fingir e mostrar aos outros o que (não) se vive. Um mundo que se alimenta de vícios nocivos e de superficialidades, que se preocupa mais com o que tem do que quem mantém na sua vida. Um mundo em que uma pessoa é considerada bonita ou feia consoante a roupa que veste e a maquilhagem que utiliza. 

Não me enquadro numa sociedade que passa um concerto inteiro a filmar e a tirar fotografias, em vez de simplesmente sentir a música, ali. Viva. Vibrante. Que só olha para onde a câmara aponta, sem guardar tempo para ver com os próprios olhos. Que passa por tudo a correr, sem parar para reparar nos pormenores, para depois afirmarem que foi o máximo e perfeito. 

Não me enquadro num mundo em que as pessoas viajam para fazer o mesmo que fazem na sua rotina, para conhecerem o que já conhecem e continuarem com mentes fechadas. Que, para se divertirem, precisam de ajuda de substâncias, sejam elas bebida ou drogas. 

Não me enquadro num mundo que fica chocado por eu dizer que não conheço os Imagine Dragons mas que não sabe quem é Mozart ou Chopin. Que não sabe pensar ou procurar conhecer algo mais do que o que a escola ensina. Não me enquadro numa sociedade que acha que dançar é fazer uns movimentos esquizofrénicos e de gatas com cio nas discotecas. Num mundo em que desporto é futebol e que desvaloriza a cultura, a ponto de não saber escrever correctamente na sua própria língua. 

Simplesmente não me enquadro numa sociedade que segue em manada o mesmo caminho, com os mesmos passos, dando voltas e voltas para acabar no mesmo sítio. Uma sociedade desligada da sua própria alma, mas conectada com o resto do mundo através das redes sociais. Que conhece um leque enorme de pessoas mas não se liga a ninguém, não se sente, não se experiencia, não se vive. Apenas se finge. 

Fingem-se conversas, sorrisos, relações. Finge-se, trai-se, corrompe-se. O capitalismo selvagem impera. Impera e arrasa uma sociedade que aceita deixar-se levar pelas máscaras que, incessantemente e cada vez mais, veste. E eu vou percorrendo o meu caminho, desenquadrada e ignorando os rostos escandalizados que avaliam as minhas escolhas. Afinal, é quando saímos do trilho que descobrimos as melhores coisas e vivemos as melhores histórias. 

E talvez, apenas talvez, eu vá encontrando por aí desenquadrados como eu.

3 comentários:

Márcia V. disse...

Assino por baixo.
Também não conheço os Imagine Dragons,chocante não é?Pois que seja,nem todos temos que gostar do mesmo e seguir as modas.Acredita que existem muitos desenquadrados como tu,ou os outros é que o são?

Por entre o luar disse...

Acabaste de encontrar uma desenquadrada como tu :) revi-me tanto neste teu texto !*

Marta Fernandes disse...

texto lindo :) também não sei quem são os Imagine Dragons, que escândalo! É quem não vai atrás da carneirada que mais rapidamente define os seus traços da personalidade e que tem o que se pode chamar de identidade..